“Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente
imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade
cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba,
por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer
de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar
sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de
certo ‘clima’, certa ‘preparação’. Certa ‘grandeza’. Deve ser por isso
que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma
preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a
incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e
por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou
amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o
amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma,
dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma
que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da
solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente
incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram
nossa patética fragilidade."
[Caio Fernando Abreu]
Encontrei esse texto do Caio no Tumblr hoje. Me lembrou muito minhas últimas vivências e reflexões sobre a morte.
Até mais.
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