Teoricamente hoje (02:26h do dia 30/07/2011) é sábado, mas pra mim ainda é sexta. Sendo assim, ontem recebi duas notícias tristes.
A primeira foi assim que acordei e liguei o computador. Como de costume entrei no facebook e a primeira coisa que leio é um recado de uma colega dizendo que o Renato, colega nosso de faculdade, faleceu na quarta-feira. A primeira reação foi um choque. Ele, tão novo, alegre, divertido e, de repente, morto? Não da pra acreditar fácil assim. Fui procurar mais notícias e aos poucos consegui. Descobri que ele morreu por uma meningite. Estava no Tocantins, passou mal por lá, ficou na UTI e acabou falecendo (não gosto desse termo: falecer). O corpo dele só chegou em Goiânia as 23h da quinta-feira.
A segunda notícia não foi dada logo de cara assim. Eram 12:50h quando meu telefone tocou. Eu estava prestes a ir almoçar e ainda buscando notícias do Renato. Era a Renatinha que ligava de um número que não tinha salvo no celular. Ela estava com a voz diferente, apreensiva. Mal disse oi e já perguntou se meu carro estava aqui em casa. Por um breve momento pensei que ela tinha visto meu carro passando numa avenida, que tinham roubado meu carro, mas não era nada disso. Eu disse que o carro estava aqui sim e logo ela perguntou se tinha como levá-la com uma tia até a vila aurora. Eu disse que sim, que tinha como, e comentei sobre o que pensei quando ela perguntou do carro. Ela disse que não era isso, e que era ainda pior. Estranhei muito mas não disse nada. Marquei de buscá-la naquela mesma hora. Desliguei o telefone, troquei de roupa e fui, sem ter a mínima idéia do que me esperava.
Sai até sem almoçar, e olha que o almoço tava pronto e tinha strogonoff.
Cheguei na porta do prédio da avó dela e ela já esperava na porta junto com a tia-avó. Ela de calça jeans, sandália e uma blusa verde, meio verde-água-escuro. Elas entraram no carro, clima meio pesado, e eu perguntei pra onde iriamos. Ela respondeu e o silêncio se instalou. Perguntei se eu devia ir rápido ou se podia ir de boa, ela disse algo tipo "tanto faz". E um pouco depois, ainda descendo a av. milão, ela me conta que o tio dela, o Élio, havia falecido. Foi esse o termo que ela usou.Foi o estado de choque número 2 do dia. E esse foi ainda mais chocante!
A Rê não me olhava, se manteve olhando pra frente, e eu dirigindo e olhando pra ela sempre que dava. Tentando não fazer as mil perguntas que passavam pela minha cabeça na hora. E assim foi por um bom tempo, sem que ela me olhasse nos olhos.
A gente chegou na casa da tia dela e enquanto a tia banhava e arrumava uns documentos a gente tentou almoçar (comemos pouquíssimo). Nisso o telefone da Rê não parava de tocar. E foi assim ao longo do dia. Chamadas, mensagens. Conversei um pouco com ela enquanto a tia arrumava, falei pra ela chorar lá porque tinha certeza que ela não ia querer se mostrar frágil diante dos outros familiares. E assim foi feito, por muito menos que um minuto, mas pelo menos ela extravasou um pouco.
Depois disso ao longo do dia eu a acompanhei em tudo, tentando ao máximo ser útil e discreta. Não atrapalhar nada nem ninguém. Fui na casa da tia, no IML, na casa da vó, na casa dela, comprei lanche e a fiz comer um pouco, fui ao cemitério e virei a noite lá. Estive com ela e com a família todo o tempo, até a volta pra casa no dia seguinte.
E ao longo desse longo dia me sensibilizei muito, não só com a Renatinha, mas com toda a situação e com toda a família. Eu também conhecia o tio, foi ele que levou a gente (a Rê, eu, a gorda e a Jú) pro rio vermelho em 2008. Passamos uns dias juntos lá, com a vó e o vô também. E, sem dúvida, senti a perda dele também; mas o que mais me sensibilizava ali era ver, tão de perto e sem poder fazer nada, a dor de todas aquelas pessoas queridas.
Aquela é uma família que eu acabei 'adotando' e fui sendo adotada também. É a vó que eu também chamo de 'vó'; o vô, que eu também chamo de 'vó'; a tia e o tio que são 'tios' meus também. Pela convivência acabou sendo assim. As vezes vejo mais alguns familiares da Rê do que os meus próprios. E ver esse tanto de gente boa, de gente especial e querida, sofrendo dessa maneira me partiu o coração.
Eu tentava ao máximo não chorar, mas tinha hora que não dava. Quando chegamos no apartamento da 'vó' e eu fui cumprimentando a família e, especialmente com a tia e a 'vó', não deu pra segurar o choro. Essas são cenas que eu não devo esquecer tão cedo (pra não dizer nunca). E também, nas poucas vezes ao longo dessas 24 horas, quando a Rê chorou, não dava pra segurar. É só ver ela chorando daquele jeito que, pronto, to chorando junto.
Graças a Deus foram pouquíssimas vezes que vi a Rê chorando dessa maneira. Eu gosto DEMAAAAIS dessa menina! É muito diferente, sabe? Chega a ser estranha a dimensão do sentimento que tenho por ela. É muito carinho, muito afeto, muito amor. É sentimento demais pra vê-la sofrendo assim. Vê-la sem aquele sorriso lindo no rosto, sem aqueles olhos brilhosos que quase se fecham quando ela ri. E o pior é não poder fazer nada. Absolutamente nada pra mudar a situação.
Eu só queria poder parar, um pouco que fosse, o sofrimento de todos ali. Especialmente da Rê, da 'vó', das 'tias' e dos 'primos'. Eram eles os que (aparentemente) estavam mais sensibilizados com a situação.
Deus sabe o quanto eu queria poder fazer algo! Poder dizer que ta tudo bem, que é trote, coisa de novela, produção hollywoodiana ou qualquer coisa do tipo. Qualquer coisa que desse um fim a tamanha dor e sofrimento. Mas, infelizmente não dava, não tinha nada a ser feito. Nada além de encarar a situação, dar apoio, tentar dar força, carinho, atenção. E foi isso que eu tentei ao máximo fazer ao longo (e bota longo nisso!) do dia.
Por mais que diretamente não doa tanto, ver a dor tão presente assim na vida de quem a gente gosta, acaba fazendo doer na gente também. E não é algo passageiro. É dor que marca, que não vai ser esquecida. Com o tempo eu acredito que ameniza, que outras situações vem e tiram o foco dessa, mas a marca vai ficar. Mesmo que, com menor intensidade, vai continuar doendo.
E digo isso pensando não só na Rê, mas também em outros amigos que perderam familiares, e também na falta que sinto dos meus.
Sabe o que eu pensei durante a madrugada do velório? Que vai demorar tempo, muito tempo, mas muuuito tempo mesmo, pra eu ver de novo a 'vó', a tia e a Rê com A-QUE-LE sorrisão. Aquele espontâneo de brilhar o olho e deixar ele pequeno, estilo 'japonesa'. Aquele de chegar faltar ar, sabe? Uma família, três gerações, que eu sempre vi tão alegres, engraçadas, sorridentes e, de repente, vejo naquele choro contido e incontido. É de cortar coração mesmo.
E, depois de pensar nisso eu espero, de verdade verdadeira do fuuundo do coração, que eu esteja errada. Esteja muito errada dessa vez.
Espero que passe, e passe logo, pra aquela alegria toda voltar a ser a rotina. :)
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E durante o dia, a noite, agora e por um bom tempo eu pensei, e continuo pensando, me perguntando "e quando chegar a minha vez? Quando for um familiar meu? Como vou reagir??"
Cada vez mais a morte ta rondando, chegando perto. E quando ela da as caras assim, sempre de repente, eu penso ainda mais nisso. E é pensamento que não acaba mais.
E tem sido assim esses dias.
Cansada? Pensativa? Sensibilizada? [ironia]Nãããão. Imagiiina![/ironia]
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Morte é um assunto que disperta minha curiosidade. E já tem um bom tempo que é assim. Tanto que já escrevi outras vezes aqui sobre esse assunto.
Acredito que boa parte de nós, seres humanos, não estamos preparados pra lidar com a morte. Seja a própria morte ou seja a morte de alguém próximo.
E eu acredito que não estamos 'preparados' por não pensarmos muito a respeito da morte. Por não encará-la. Por não pensar nessa situação, por não falar sobre isso, por não trocar idéia. Muita gente evita esse assunto, evita de pensar na situação da morte.
Nem sei se pensar nisso é o bastante pra se 'preparar'. Na verdade, na verdade, a gente nunca ta preparado pra morte. Mas penso que se 'Morte' não fosse tabu, fosse assunto mais discutido, talvez seria um pouco mais amena a reação quando ela bate tão de frente assim, tão perto.
Talvez essa serenidade (que vi pouquíssimas vezes) na reação a morte de alguém próximo esteja intimamente ligada a maturidade, a experiência (e, como já disse aqui no blog, pra mim experiência e idade não tem relação direta); e, principalmente, a como aconteceu a morte. Existem situações e situações, e em algumas delas acredito que não da pra se manter sereno assim. É realmente inconformável.
Eu espero um dia ter essa serenidade, essa aparente tranquilidade, pra encarar situações como essa. E espero, ainda mais, que isso não seja confundido com sentir menos ou não sentir. Acredito sim que é possivel sentir, e sentir muito, a falta, a morte de alguém e ainda assim manter-se centrado, sereno.
Cada um tem seu jeito de ser, de sentir, de falar ou não falar. E é preciso, antes de qualquer coisa, respeitar a maneira de cada um.
Que eu consiga, ao longo do tempo, chegar nesse nível de serenidade. Não só ao encarar a morte, mas em várias outras situações da vida.
Amém!
Não sei até quando duraria, mas, hoje, queria ser assim.
P.S.: Texto pronto as 04:40h. Duas horas e pouco escrevendo na madrugada.
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