Era mais ou menos 15:15 numa tarde de sábado. Eu estava em casa, mais precisamente dentro do estúdio, junto de mais nove pessoas ensaiando pra um show que aconteceria no dia seguinte. A música que tava sendo passada era ruim, um forró de refrão daqueles que gruda na cabeça e você fica cantando o resto do dia... "Vô não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não, eu vou não, quero não".
Tava tudo normal até então, muito normal. Até que alguém abre a porta do estúdio. Se meus pais tivessem em casa, poderia ser um deles. Imaginei que fosse um amigo desses que costumam frequentar minha casa, tipo o Dan, o Pedrim, a Renatinha ou outro, mas não. Pra minha surpresa quem abriu a porta do estúdio foi o Pablo. Sim, o Pablo.
O Pablo é um amigo. Mesmo que sumido, ainda é um amigo, e muito querido. Demorei uns segundinhos pra reconhecê-lo e pra acreditar que era ele. Como tava no meio da música continuei tocando. Ele sinalizou alguma coisa, que não entendi na hora, mas era do tipo 'vou ta aqui fora, ok?'. Terminei de tocar a música, pedi licença pra galera que tava no estúdio e sai. Olhei na biblioteca e nada dele, até achei que tinha ido embora, mas quando fui pra área o vi, encostado numa das pilastras da garagem, a do meio.
Ele tava diferente. Camisa, calça e sapato social, mais gordo. O olhar dele também já não é o mesmo que me lembrava. Ele parece menos esperançoso, mais adulto.
A gente conversou. Aquele papo que sempre acontece quando re-encontramos algum amigo... 'Como você tá? Anda fazendo o quê da vida? Casou? Ta trabalhando com o quê? E a faculdade? Tem visto o povo daquela época?', novos planos, essas coisas.
Uma das primeiras coisas que ele me disse durante essa conversa foi que eu tava diferente. Ele já tinha visitado o Pedrim, o Dan e a Ju. Disse que o Pedro e o Dan são os mesmos, mas eu e a Ju estamos diferentes. Perguntei "diferente como" e ele não respondeu. Depois insisti na pergunta e ele falou que pra começar eu estou mais magra. Bem mais magra. E ele ficou só no começo mesmo. Não falou mais nada sobre a minha diferença. Eu disse que ele ta fazendo um 'resgate' dos amigos, visitando todos assim, repentinamente. E também falei "Sua cara mesmo fazer isso!". Ele: "É. Eu precisava saber como tudo terminou."
Ele ficou aqui por pouco tempo. Deve ter sido uns 15 minutos, no máximo. Meu ensaio tava parado, ele disse que tinha outro compromisso. Visita rápida, surpresa, e que me alegrou na mesma quantidade que me deixou nostálgica e pensativa. Na despedida rolou um "Nossa! Muito bom te ver de novo!" e um abraço. Abraço 'meia boca' da parte dele diga-se de passagem. Abraço pela metade, só com um braço, sabe? Não gosto disso. Definitivamente ele também está diferente.
Logo ele foi pro carro dele, acho que era um focus preto, que tava bem na porta aqui de casa.
No fim da visita, quando ele já tava no carro se arrumando pra ir embora,eu perguntei se ele tinha o CD da Fantoches e ele disse que não. Eu falei que iria dar um CD pra ele. Corri lá no quarto, no caminho ainda não tava acreditando que tudo isso tava acontecendo, peguei o CD e voltei ao portão. Entreguei pra ele que logo abriu e colocou o CD no som do carro. Antes do CD começar a rodar fiz uma pergunta a ele: "Pelo pouco tempo que você viu, esse 'diferente' que vc percebeu, é um diferente bom ou ruim?". E ele: "Não sei Helo, não deu tempo de saber." Deu partida, engatou a ré, começou a sair e eu disse: "A gente sempre fica com conversas assim, né? Nunca termina." e ele, enquanto ele ia embora, respondeu: "nunca termina, nunca vai terminar." e pronto. Foi isso.
Achei bem 'a nossa cara' essa 'cena final'. Tanto minha quanto dele. Eu perguntando e ele com essas respostas um tanto filosóficas.
Assim foi, assim é e assim será...
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